21/07/2018 às 13h47min - Atualizada em 21/07/2018 às 13h47min

Óbidos e a Cabanagem - No dia 12 de julho de 1837, a tomada de Ecuipiranga, último reduto dos cabanos no alto e baixo amazonas.

Você sabia que a Cabanagem chegou até a Província do Amazonas, e Óbidos foi um ponto de resistência as atrocidades cometidas pelos cabanos na região

Por: * Prof. Esp. Carlos Augusto Sarrazin Vieira

Foto: Portal Obidense (Barreira de Óbidos)
ÓBIDOS - Alguns anos atrás antes de conhecer mais profundamente a história do Baixo Amazonas e em especial de nosso Município, tinha a impressão que a revolta popular iniciada na capital do Estado do Pará na década de 30 do século XIX, historicamente conhecida como Cabanagem, que segundo Monteiro (2006, pg. 111) “...foi um movimento libertário profundamente nativista, que se originou em razão da grande distância que separava a Amazônia dos centros de decisão dos colonizadores e do Império, motivado o tratamento violento e explorador da população, sem o controle das autoridades maiores, sem qualquer acesso aos violentados e explorados.” se resumia a Belém e a municípios circunvizinhos, pelo menos é essa a impressão que temos ainda hoje quando estudamos a história do Pará.

O historiador paraense Benedito Monteiro autor do livro História do Pará, é omisso em suas narrativas resumindo o movimento a Belém e demais municípios daquela região. No entanto, após inúmeras pesquisas e acesso a livros e documentos constantes nos arquivos da Assembleia Legislativa do Estado do Pará, publicados na revista Memórias do Legislativo, nº 1, podemos constatar outros fatos, tais como: a Cabanagem chegou até a Província do Amazonas, e Óbidos foi um ponto de resistência as atrocidades cometidas pelos cabanos na região.

Após a tomada de Belém e uma disputa interna pelo poder, muitos grupos cabanos se dirigiram para o interior da Província, chegando a outros municípios da Província do Amazonas, entre eles a Vila de Silves e Maués.  Nesse momento, os objetivos pelos quais tanto lutaram transformaram-se em objetivos particulares de pessoas que os lideravam, tais como: Maparajuba, Barbosa, Belisário, Saraiva, Pantoja, Albuquerque, entre outros.

Segundo o historiador Arthur César Ferreira dos Reis (1979, pg. 69) “Quando sentiam que as armas contrárias podiam vencê-los sem probabilidade de êxito para os seus, contornava a situação e avizinhavam-se das posições inimigas fingindo-se amigos, perseguidos pelos rebeldes. Uma vez dentro das vilas ou povoados ou simplesmente acampamentos legais, brechavam a disciplina e conquistavam muitas vezes sem um tiro.” Estratégia usada quando chegaram em Óbidos, já que assim como outras Vilas mantinham cerrada vigilância.

Na ausência do Vigário Raimundo Sanches de Brito, dirigiram-se ao Vigário interino Padre João Antônio Ferreira dizendo serem amigos, assim foram autorizados a entrar na cidade. No decorrer da noite, liderados por Miguel Apolinário Maparajuba líder cabano de Ecuipiranga, começaram a invadir o Forte Pauxis, apossando-se das armas, residências e praticando atos arbitrários, tais como: roubo, assassinatos, etc.
 
Segundo o escritor José Veríssimo, pessoas que se opunham a seus intentos eram levadas e amarradas em uma árvore próximo a barreira (conhecida como a árvore do bota n’agua), de onde eram empurrados para serem mortos com a queda ou afogados nas águas do Rio Amazonas.

No entanto, a ação depredadora dos cabanos foi mais intensa na zona rural, onde invadiam as fazendas dando grandes prejuízos a seus proprietários, fazendo com que muitas famílias fossem obrigadas a enterrar seus objetos de valores como forma de defesa de seus patrimônios. Em certas ocasiões ocorriam assassinatos devido à resistência.

Com o retorno do Padre Raimundo Sanches de Brito, através do diálogo foram convencidos a deixar a cidade, fato este que possibilitou que seu irmão Padre Antônio Manoel Sanches de Brito, organizasse um pequeno exército de resistência formado por índios e caboclos e saíssem libertando algumas vilas que haviam sido tomadas pelos cabanos.

Devido a omissão do governo provincial no combate as atrocidades cometidas pelos cabanos no alto e baixo Amazonas, no ano de 1837 o Padre Antônio Manoel Sanches de Brito, fez severas críticas aos emissários do Presidente da Província. De acordo com o padre: “... em retribuição a tantos sacrifícios, parece-nos um auxílio de impostores, constituindo-se árbitros sem nada fazerem senão dançar, namorar e negociar, pensando talvez que o sertão se havia metamorfosear em Tatuóca” (Memorias do Legislativo, Ano 1, pg. 16)

As referidas críticas, levaram o Presidente Marechal Andréa a decretar a prisão do religioso. Porém, a popularidade do padre era tão grande no interior, que acreditava-se que o mesmo era capaz de reunir em pouco tempo um total de 12 mil homens e combater o poder provincial. Fato este constatado nas eleições de 1837 (Fundamentos Históricos do Poder Legislativo do Grão-Pará, 1999, pgs. 35,37,42 e 47) quando foi eleito deputado fazendo parte da implantação do Poder Legislativo Provincial.

No decorrer de sua legislatura o Padre Antônio Manoel Sanches de Brito, fez ferrenha oposição ao governo provincial, e em seu discurso datado do dia 12 de setembro de 1840 nos anais da Assembleia Provincial, retrucou as críticas do Marechal Andreas de que a Vila de Cametá foi a única a empunhar a bandeira da legalidade.       
 
Segundo Sanches de Brito, enquanto Cametá dispunha de um grande aparato militar, tais como: canhões, embarcações de guerra, armas, munições, segurança pública, hábeis oficiais e relações frequentes com o Presidente da Província, Óbidos, contava apenas com 28 armas nacionais, 237 cartuchos e canhões de madeiras colocados estrategicamente para iludir os revoltosos.

Afirmou ainda que devido à falta de recursos provinciais, a Vila de Óbidos só não sucumbiu graças as senhoras obidenses que doavam suas joias para manter as despesas com o deslocamento das tropas formadas por caboclos de Óbidos, Juruti, Parintins, Faro e índios da região.

Enfatizou também, um cerco feito pelos cabanos a cidade de Óbidos, deixando a população durante três dias se alimentando a pão e milho, porém, após imenso tiroteio se retiraram sem contudo retomarem a cidade, e que a pólvora usada para recarregar os cartuchos foi produzida na cidade de Óbidos, após a leitura de um velho livro e muita combinação para extrair o salitre.

Segundo o Padre Antônio Sanches de Brito, houveram novas tentativas de retomar a cidade de Óbidos, chegando ao ponto de um grupo com aproximadamente 300 homens comandados por Saraiva, Albuquerque e Barbosa enviarem um ultimato a população que se rendesse, e como resposta “...que só a sorte decidiria, mas nunca entregar-se...”, prova incontestável da coragem e ousadia do povo obidense.  

Enquanto esses fatos ocorriam, a localidade próximo a cidade de Santarém conhecida por Ecuipiranga, tornara-se uma fortaleza ocupada pelos rebeldes, e que devido a sua posição estratégica havia resistido a pelo menos cinco investidas das forças imperiais que até então era o último reduto de resistência dos Cabanos em toda região.

Assim narrou o Padre Deputado Antônio Manoel Sanches de Brito, “...o famigerado Ponto de Ecuipiranga, ponto em verdade de terror e que parecia inconquistável, e por vezes fez reter e sucumbir algumas escunas de guerra e tendo sofrido cinco ataques por grande força e bem armada foi sempre vitoriosa, porém foi a força de Óbidos a única combinada com as das freguesias de Juruti e Tupinabarana que depois de um dia inteiro de fogo ativo [...] tomou o ponto já pela madrugada contando-se a vitória com a fuga dos rebeldes...”( Memorias do Legislativo, pg. 26, ano I).

No entanto, ainda hoje a história continua enaltecendo a tomada de Ecuipiranga atribuindo a vitória as forças imperiais, sem contudo comentar a participação do Vigário de Óbidos Padre Raimundo Sanches de Brito, de seu irmão Padre Antônio Manoel Sanches de Brito (que até hoje continuam no ostracismo sem terem recebido qualquer homenagem da população obidense através de suas autoridades constituídas) e da bravura de seu exército formado por corajosos e destemidos cidadãos obidenses, alenquerenses, jurutienses, parintinenses, farenses e nativos da região.

 É preciso reescrever a história, revivendo e eternizando a memória desses heróis anônimos que demonstraram bravura e coragem, oferecendo em holocausto sua própria vida em defesa da liberdade, da paz e prosperidade deste vasto rincão da Amazônia.

 * Prof. Esp. Carlos Augusto Sarrazin Vieira - Para conhecer mais sobre a história de Óbidos - visite a seção do Portal (História de Óbidos ou menu)

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
- Fundamentos Históricos do Poder Legislativo do Grão-Pará. Editora CEJUP. Belém. 1999.
- Memórias do Legislativo. Assembleia Legislativa do Estado do Pará. Ano 1. Nº 1.
- MONTEIRO, Benedicto. História do Pará. Editora Amazônia. Belém. 2006.
- REIS, Arthur Cesar Ferreira. História de Óbidos. Editora, Civilizações Brasileira. 2ª Ed. Rio de janeiro, 1979.

 

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