09/09/2017 às 17h47min - Atualizada em 09/09/2017 às 17h47min

De Fordlândia, expulsaram criminosos e inocentes (Sobre a revolta de 1930 – Parte 02)

Por: Pe. Sidney Canto
Do Blog do Pe. Sidney
Foto: Blog do Pe. Sidney

Indagando-se sorrateiramente de algumas pessoas que voltaram da Fordlândia, contrariados com os últimos acontecimentos dali, sabe-se que a estupidez foi a causa motriz de tudo.

Entre a gente que ali se encontra, há homens que, embora humildes e sem trato algum que os recomende, são, por índole, sensatos e cumpridores dos seus deveres; e há a escória. Esta classe nunca é composta de caboclos dos sítios e nem de matutos sertanejos, e sim de marinheiros e soldados insubordinados, desertores, empregados infiéis de reputação reconhecida, agentes de jogos e contrabandistas, capangas profissionais, foragidos das casas de correção e dos seus próprios lares, e outros inimigos da sociedade.

E todos têm cara de gente.

Por isso, era de prever-se, mais cedo ou mais tarde, qualquer anormalidade.

Bastava para isso um pretexto.

Naquele dia (da Revolta do “Quebra Panelas”), um trabalhador chama um dos chefes estrangeiros e reclama a inconveniência de uma inovação não maneira de serem servidos no refeitório, a que não estavam habituados, e o chefe, ignorando o peso de sua resposta, atira: “Para brasileiro está bom!”

Foi o bastante!

(Os poucos de boa índole, aquietaram), mas a escória, em número muito superior, irrita-se, avança, invade, depreda, ameaça e arrasta pela força os outros que, apesar de tudo, sentiam-se satisfeitos naquela tenda de trabalho, onde tinham como certo o seu ganha-pão.

Mais não fizeram, impedidos pelos rogos de outros trabalhadores, do Dr. Siqueira Mendes e do engenheiro Chatfield, a quem eles têm uma espécie de veneração.

Tudo isso por que?

Porque a maior parte dos auxiliares nacionais, dos administradores da Companhia, não tem uma digna compostura para exercer os seus cargos. Em vez de procurarem implantar a cordialidade entre a gerência e os trabalhadores, cavam abismos servindo-se de intrigas e pirraças, e outros meios de detrimentos para a própria Companhia.

Ou a administração da Empresa Ford é muito ingênua, ou muito vaidosa, senão há muito tempo ter-se-ia prevenido, tomando as necessárias providências.

E agora, o que sucede?

É que o sr. Henry Ford, que nunca deu motivos para desgostar os seus trabalhadores, está sendo prejudicado, e os nossos pobres patrícios, arrancados da sua tábua de salvação e atirados às incertezas do presente momento, quando até os privilegiados da sorte estão em expectativa.

Não será uma vindicta esta decisão tão brusca dos administradores da Companhia contra os nossos interesses nacionais?

Este êxodo parece mais um acinte do que uma medida de ordem.

Faz-nos lembrar a emigração dos famintos dos sertões nordestinos e os tempos de seca, com a diferença apenas que lá emigram em procura do trabalho e ali os expulsam dele; os de lá emigram, viajando entre a terra seca e o céu azul, e os dali, simplesmente enjaulados.

Em face da situação que atravessamos, tais atos parecem insensatos.

Por que não procuram os responsáveis dos crimes?

Por que os inocentes também são castigados?

É a eterna “questão de caprichos” de quem pode...

Zé Brasileiro

NOTA: Publicado no Jornal A Justiça de 10 de janeiro de 1931.

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