18/01/2016 às 09h48min - Atualizada em 18/01/2016 às 09h48min

Pescadores da Amazônia já falam em impactos das alterações climáticas

No chamado pulmão do mundo a natureza da os sinais evidentes que algo mudou e que o futuro está na Amazônia está inserto.

Thiago medaglia
InfoAmazônia
Reserva mamirauá - AM

AMAZÔNIA - “Em qual universidade você se formou?''. A pergunta era inevitável nas rodas de conversa entre os pesquisadores do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá (IDSM), no Amazonas. Ruiter Braga, 41 anos, nascido à beira do rio, filho de pescador, respondia um tanto sem graça: “Na universidade da prática''. Foi assim durante muito tempo, mas não é mais. Ruiter, agora, é biólogo.

“Falta apenas uma disciplina'', frisa o Técnico no Programa de Manejo de Pesca do IDSM. “As viagens interferiram nos estudos'', ele complementa. Ruiter ainda relata que a busca por uma formação acadêmica veio por incentivo de alguns biólogos do IDSM. “Foi difícil. Eu tinha terminado o ensino médio há 14 anos, mas consegui'', diz o biólogo prestes a ser graduado pela Universidade Estadual do Estado do Amazonas.

Mas agora, diante de um clima cada vez mais irregular, algumas “das previsões baseadas no conhecimento tradicional dos ribeirinhos não são mais confiáveis'', afirma Ruiter. E é justamente por aliar o conhecimento ancestral com a fundamentação científica, que suas falas sobre a floresta devem ser ouvidas.

Pesquisadores e pescadores têm notado algo de diferente nas condições climáticas da Amazônia?

Nasci e cresci na Amazônia. Posso afirmar que, de uns 20 anos para cá, o clima mudou bastante na região. Antes, a partir do conhecimento empírico dos ribeirinhos mais antigos, era possível prever o início das estações e, dessa forma, planejar as atividades de plantio e colheita na várzea e saber a época ideal para dar início à pescaria sem o risco de uma seca extrema ou uma cheia antecipada.

Quais as alterações mais perceptíveis em Mamirauá? E quais os impactos para o manejo do pirarucu?

Em 2014, os pescadores que realizam o manejo de pirarucu foram prejudicados pelo nível do rio, que se encontrava muito elevado no período de realização da pesca (outubro e novembro). Os níveis dos rios Solimões e Japurá, na região do Médio Amazonas, se mantiveram elevados por causa da antecipação das chuvas. Para se ter uma ideia dos impactos nas 11 áreas de manejo que assessoramos, foram autorizados pelo Ibama 11.910 pirarucus adultos como cota anual de captura. Porém, os pescadores chegaram a apenas 8.307 indivíduos [o equivalente a 70%]. Em alguns lugares, a situação foi mais crítica do que em outros.

Pode explicar melhor o que ocorreu nos locais mais afetados?

Das 11 áreas de manejo, após a avaliação dos possíveis impactos negativos que poderiam causar, os pescadores optaram por não realizar a pescarias. O elevado nível da água nos ambientes de pesca dificulta a captura do pirarucu, que, tradicionalmente, é arpoado (fisgado com o auxílio de um arpão). Os mais de três mil pirarucus não capturados, juntos, poderiam equivaler a 211 toneladas de peixe. O dinheiro que viria daí (em torno de 900 reais por pescador no bimestre de pesca) fez muita falta às famílias.

Sim, isso sempre aconteceu. No entanto, a região era marcada por uma estação seca e outra chuvosa, ambas bem definidas e com períodos de enchente, cheia, vazante e seca. Agora, a sensação é a de que as datas dessas transições não estão mais regulares, como costumava ocorrer. Os pescadores mais antigos dizem que o “repiquete” (fenômeno que acontece entre os períodos de seca e enchente, é uma subida temporária do nível do rio, mas ainda não é a cheia “verdadeira'') em nossa região era esperado para o dia de finados (2 de novembro), mas, nas últimas duas décadas, a data tem sido bastante irregular, o que prejudica a pesca (o metabolismo e o comportamento dos peixes também são impactados). As previsões a partir do conhecimento tradicional não são mais confiáveis.


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