31/03/2024 às 16h50min - Atualizada em 31/03/2024 às 16h50min

Nova tartaruga-cabeçuda-gigante da Amazônia pode ter convivido com humanos

Espécie descrita também pode ter sido parte da dieta de indígenas

Por: Thiago Mariani
Fauna News

Nova tartaruga-cabeçuda-gigante

AMAZÔNIA - Depois de muito tempo, uma tartaruga volta a ser destaque. Desta vez, uma nova espécie de tartaruga fóssil foi descrita para o nosso país. Se alguém está pensando que ela é das antigas, você está certo – caso contrário, não seria um fóssil, né? Mas ela não é tão antiga quanto às outras que já foram citadas. O fóssil de hoje é bem mais recente e pertenceu a uma espécie que pode ter coexistido com os humanos indígenas na Amazônia.

A espécie ganhou o nome de Peltocephalus maturin e tornou-se a segunda espécie dentro desse gênero, porque atualmente existe a espécie Peltocephalus dumerilianus, que também se distribui pela região amazônica e é chamada popularmente de ‘cabeçudo’. O cabeçudo, como o nome comum bem diz, é um animal com uma cabeça grande para uma tartaruga, tanto que não consegue guardar a cabeça por completo abaixo da carapaça, e tem hábitos onívoros. Esteticamente, é um bicho um pouco assustador, por ser grande e ter a boca com um bico que, sem sombra de dúvidas, deixaria um belo machucado se alguém fosse mordido.

O fóssil em si é bem pouco representativo do corpo do animal: somente uma parte da mandíbula – a parte de baixo da boca – foi encontrada. No entanto, ele é bem significativo, porque permitiu identificar o grupo e o gênero do animal e diferenciá-lo de outras espécies. A mandíbula das tartarugas é formada por seis pares de ossos. O mais anterior é chamado de dentário e pode aparecer de duas formas: pareado, com uma articulação chamada de sutura entre os dois ossos na linha média do corpo (aquela que divide o corpo nas metades esquerda e direita); e singular, sendo que ambos os ossos se encontram fusionados. Essa última condição é a que caracteriza o grande grupo ao qual Peltocephalus maturin pertence, chamado de Pelomedusoides.

Diferença entre as espécies

Agora, o que faz com que esse fóssil pertença ao gênero Peltocephalus é que essa mandíbula possui um gancho na ponta que é bastante desenvolvido e alto e uma expansão óssea chamada plataforma lingual que é bem desenvolvida. Mas o que o diferencia da espécie atual? A região mandibular onde o alimento é manipulado – lê-se triturado – é diferente entre as duas espécies, sendo que em Peltocephalus maturin as superfícies de trituração são mais proeminentes e há duas regiões de trituração (uma na mais na frente e outra mais atrás) que são separadas por uma pequena projeção óssea.

sobre as imagens ao lado: 
Imagem comparativa do osso dentário do fóssil Peltocephalus maturin (acima) e da espécie atual Peltocephalus dumerilianus (abaixo), ilustrando a grande diferença de tamanho – Fonte: Ferreira et al., 2024
 
No entanto, a diferença mais notória é o tamanho: o osso dentário de Peltocephalus maturin é aproximadamente 4,54 vezes o tamanho da espécie vivente. A estimativa de tamanho indicou que a espécie pode ter sido aproximadamente quatro vezes maior do que Peltocephalus dumerilianus. Traduzindo em números, Peltocephalus maturin pode ter alcançado 180 centímetros de comprimento da carapaça (a parte de cima do casco das tartarugas), enquanto o maior indivíduo confirmado da espécie vivente tinha aproximadamente 45 centímetros (Pritchard & Trebbau, 1984).

Um aspecto muito legal sobre esse fóssil é que ele data do final do Pleistoceno, entre 46 e 21 mil anos atrás, um período em que possivelmente já havia a presença humana na região amazônica. Nessa época também havia fauna com grande tamanho, das quais os mamíferos se destacam bastante. Sabe-se também que esses grandes animais fizeram parte da dieta humana, que teve uma contribuição e tanto na extinção dessas espécies.

A presença de uma tartaruga desse tamanho não é tão surpreendente considerando os outros grandes animais que coexistiam ali. E justamente por terem existido ao mesmo tempo que torna possível que essa tartaruga tenha feito parte da dieta de humanos habitantes da região amazônica. Restos desses animais já foram encontrados em assentamentos humanos de 12-10 mil anos e ainda fazem parte da cultura dos povos indígenas amazônicos. É, no mínimo, intrigante pensar em humanos caçando esses animais e em como eles conseguiriam tirá-los da água para se alimentar.

Sobre o gráfico acima: 
Estimativa de tamanho de Peltocephalus maturin (triângulo roxo). Gráfico mostra que a espécie era bem maior do que as outras tartarugas. Os círculos azuis são animais Podocnemis unifilis (tracajá), também da Amazônia; os vermelhos são Peltocephalus dumerilianus; e o triângulo amarelo representa a maior tartaruga de água doce, a extinta Stupendemys geographicus – Fonte: Ferreira et al., 2024
 
Referências
  • Ferreira et al. 2024. The latest freshwater giants: a new Peltocephalus(Pleurodira:Podocnemididae) turtle from the Late Pleistocene of the Brazilian Amazon. Biology Letters 20:20240010
  • Pritchard PCH, Trebbau P. 1984. The Turtles of Venezuela. New York: Society for the Study of Amphibians and Reptiles.

 


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