01/12/2022 às 17h26min - Atualizada em 01/12/2022 às 17h26min

Produtora audiovisual santarena conta sobre a Pajelança em filme que terá lançamento nacional | Portal Obidense

O curta é uma produção regional do Baixo Tapajós e retrata o processo de espiritualidade ligado à defesa do território pelo pajé Naldinho Kumaruara

Da redação
Produtora de Santarém lança file Kumarú - estreia hoje
Estreia hoje (01/12) as 18hs


SANTARÉM - Os caminhos percorridos da espiritualidade, o entendimento de pertencimento como Pajé e a defesa do território, são esses alguns dos temas retratados no documentário “Kumarú: cura, força e resistência”. O filme narra a história do pajé Naldinho Kumaruara que durante seu processo de entendimento da própria espiritualidade começou a compreender sobre seu dom de cura e conexão com os seres sagrados da floresta.

O filme tem na produção e roteiro o próprio pajé e a produtora santarena Dzawi Filmes, além de outros indígenas Kumaruara que contribuíram diretamente na execução e finalização.

O projeto faz parte da Websérie Ancestrais do Futuro da Fundação Paulista Tide Setubal e terá o lançamento no dia 01 de dezembro pela Plataforma do YouTube, no Canal “Enfrente”. É a primeira produção nacional da Dzawi Filmes, que ficou entre cinco finalistas, concorrendo com coletivos de todo o Brasil.

As gravações do curta aconteceram dentro do Território Indígena (TI) Kumaruara, na aldeia Muruary, região do Baixo Tapajós na Reserva Extrativista Tapajós Arapiuns (Resex) de onde Naldinho e sua família são, e em outros locais do território que são importantes espiritualmente para o pajé. Foram três dias de gravações que contaram com participações intensas de todos os parentes de Naldinho, que são fortemente ligados ao seu processo e história.

O curta nasceu a partir de conversas feitas entre Naldinho e os diretores Yuri Rodrigues e João Albuquerque, essas trocas permitiram que soubessem mais sobre a história do pajé e todos os desafios que passou até compreender seu dom e a responsabilidade que tinha de levar essa compreensão sobre a espiritualidade para outros parentes.

“Entendemos que a história do Naldinho era muito importante e urgente e nós poderíamos coletivamente contar essa história protagonizada por ele”, relata Yuri.

Para Yuri Rodrigues, contar através do audiovisual sobre a pajelança é muito importante para reafirmar a existência e resistência dos curadores na região do baixo Tapajós.

“A importância de falar sobre a pajelança é ir contra todas as práticas coloniais de negação, preconceitos e invisibilização dos curadores e mostrar por meio do cinema que os pajés existem e resistem em seus territórios e no cotidiano da cidade. Então o nosso objetivo é poder contribuir para a visibilidade dessa luta e o reconhecimento das lideranças de cura da nossa região”, ressalta.

O processo de espiritualidade

Mesmo com o dom da espiritualidade fortemente durante toda sua vida, foi só na fase adulta que Naldinho Kumaruara buscou entender e trabalhar o dom da cura.

Para ele não foi uma decisão de escolher, mas sim de entender a sua espiritualidade e trabalhar isso em favor do seu território. “Esse compromisso eu assumi e a partir daí foi organizar a aldeia no sentido espiritual", completa.

Arlete Kumaruara, mãe de Naldinho, conta que o dom da pajelança acompanha o filho desde a infância, e que foi uma missão deixada pela sua mãe para o neto.

“A partir do momento que ele decidiu que era isso que ele queria, que ele não se envergonha, que não é uma coisa que você se envergonhe então o resto não importa, nem o que as pessoas pensam, o importante é que você sente, o que você é e o que você quer, porque isso é de menos” ressalta.
A resistência do território está fortemente ligada à espiritualidade, e Naldinho ressalta a importância da luta do pajé Laurelino, que também era do povo Kumaru. Foi a partir dele que surgiu um movimento na região do Baixo Tapajós de organização política para reivindicar os direitos dos povos indígenas e seus territórios.
 
“Se nós indígenas estamos lutando, se organizado e retomando nossa aldeia, se a gente não tá bem espiritualmente as coisas não vão dar certo, por isso que falamos que o território é sagrado, no sagrado não existe confusão, não existe egoísmo, nem ambição, é uma coisa só, somos uma coisa só” afirma Naldinho.

O Território Kumaruara

O povo Kumaruara vem do povo Kumaru, um povo indígena muito antigo que habitava e ainda habita a região do Baixo Tapajós. O território faz parte da Reserva Extrativista Tapajós Arapiuns (RESEX), na região do Baixo Tapajós, e tinha sua extensão muito maior comparada a que é hoje, mas por conta da colonização muitas aldeias deixaram de existir e muitos Kumaruara morreram ou se mudaram, mas, ainda permaneceu as seis aldeias que resistem até hoje.

“Kumaruara quer dizer povo forte e resistente, mas também povo de cura, é como a gente se sente, como a gente é, como eu vejo isso, como eu sinto dentro da espiritualidade e dentro da nossa vivência” afirma Naldinho Kumaruara.

A Aldeia Muruary é uma das seis aldeias que fazem parte da TI Kumaruara. Segundo o pajé, ela se chama Muruary porque é o nome de um guia espiritual que viveu no território, após sua morte se encantou e seu espírito ainda é vivo no local, ele também é um guia espiritual de Naldinho. O mesmo nome da aldeia é o nome do igarapé e do lago que abrangem a região.
Naldinho finaliza, “a gente tem um território que é sagrado, isso é uma resistência muito grande e a gente sabe que necessita do território pra viver e dar continuidade no que a gente é, por isso que chama povo forte e resistente de cura, como a árvore de Kumaru”

A Dzawi Filmes

A Dzawi Filmes é uma Produtora Audiovisual e Cultural independente criada em 2020 pelos Jovens Yuri Rodrigues, João Albuquerque e Wernen Veiga, no município de Santarém/PA. A atuação da produtora se organiza por meio de produções audiovisuais que busca o fortalecimento de contra narrativas amazônicas e protagonizadas pelo olhar de quem sempre foi invisibilizado, como aqueles (as) que estão nos territórios tradicionais e nas periferias das cidades, população negra, povos indígenas, quilombolas e populações tradicionais.

A Dzawi filmes tem na sua criação o objetivo de democratizar o cinema nas periferias da Amazônia e contribuir para a emancipação a partir da comunicação popular como ferramenta de luta e defesa territorial na região do Baixo Tapajós.

Em suas produções, a produtora busca sempre compor a equipe majoritariamente por pessoas de Santarém e da região norte, respeitando a equidade de gênero, e que sejam pessoas negras e indígenas.

João Albuquerque que também compõe a direção do curta sobre a pajelança, ressalta o desejo da produtora em inspirar mais produções de conteúdos sobre a espiritualidade na região, “nós pretendemos inspirar os produtores audiovisuais e comunicadores da nossa cidade a produzirem mais conteúdos voltados para a questão da pajelança e do cuidado com o corpo e o espírito, pois sabemos que além da história do Naldinho existem várias outras que são fortes e podem servir de exemplo e inspiração”.

Serviço:
● Filme “Kumarú: cura, força e resistência”
● Lançamento nacional no dia 01 de dezembro pela Plataforma do YouTube, no Canal “Enfrente”.
● Produção e roteiro de Naldinho Kumaruara e produtora Dzawi Filmes



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