A Batalha Naval de Itacoatiara: O Dia em que a Guerra Ecoou no Coração da Amazônia

Um episódio histórico fascinante e um dos mais importantes eventos militares da história da Amazônia entre Óbidos e Itacoatiara, completa 93 anos

Por Por: Walmir Ferreira DRT- 1000/AM
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A Batalha Naval de Itacoatiara: O Dia em que a Guerra Ecoou no Coração da Amazônia
Batalha Naval Óbidos x Itacoatiara | Foto: Revista Noite Ilustrada

ITACOATIARA - AM - Em uma data que ficaria marcada para sempre na história da Amazônia, 24 de agosto de 1932, as águas tranquilas do Rio Amazonas, em frente à cidade de Itacoatiara, tornaram-se o palco de um confronto naval sangrento. A batalha, um desdobramento da Revolução Constitucionalista que abalava o Brasil, opôs forças rebeldes, que haviam partido de Óbidos, no Pará, às tropas legalistas do governo de Getúlio Vargas.

O Estopim da Revolta no Norte

A insatisfação com o governo Vargas, que havia eclodido com força em São Paulo, encontrou eco em um longínquo rincão do país. Em 19 de agosto de 1932, militares do 4º Grupo de Artilharia de Campanha, sediados na histórica Fortaleza de Óbidos, no Pará, rebelaram-se em apoio ao movimento constitucionalista. Liderados pelo tenente-coronel Alderico Pompo de Oliveira, os revoltosos tomaram o controle da cidade, prenderam as autoridades locais e rapidamente se apossaram de embarcações civis que navegavam pelo rio.

O objetivo dos rebeldes era ambicioso: subir o Rio Amazonas, tomar as principais cidades em seu caminho e, por fim, conquistar a capital do estado, Manaus, garantindo o controle da região para a causa revolucionária. Para isso, transformaram os navios a vapor "Jaguaribe" e "Andirá", que vinham de Óbidos, em embarcações de guerra improvisadas, armando-os com os canhões e metralhadoras da fortaleza.

A Tensão em Itacoatiara e a Resposta Legalista

A notícia do avanço da flotilha rebelde causou pânico nas cidades amazonenses. Após dominarem Parintins, os revoltosos seguiram em direção a Itacoatiara, então um estratégico entreposto comercial. A população local, temendo um ataque, fugiu para a mata, enquanto o prefeito e capitão da Polícia Militar, Gonzaga Tavares Pinheiro, organizava a resistência, ciente de que suas forças em terra seriam insuficientes para deter os navios.

Alertado sobre a grave ameaça, o governo do Amazonas, em Manaus, agiu rapidamente. Enviou dois navios pertencentes à companhia de navegação Lloyd Brasileiro, o "Baependi" e o "Ingá", para interceptar os rebeldes. Estas embarcações, embora também não fossem navios de guerra de origem, eram maiores, mais velozes e mais bem preparadas para o combate, estando sob o comando do capitão de fragata Alberto de Lemos Basto.

O Confronto nas Águas do Amazonas

Na manhã de 24 de agosto, a pequena frota rebelde, composta pelo "Jaguaribe" e o "Andirá", chegou a Itacoatiara e ancorou em frente à cidade. Pouco depois, no horizonte, surgiram o "Baependi" e o "Ingá", navegando a toda velocidade. O confronto era inevitável.

A batalha foi curta, durando menos de uma hora, mas de uma violência inédita para a região. As forças legalistas, superiores em poder de fogo e tática, levaram a melhor. A estratégia decisiva foi o abalroamento. O "Baependi" e o "Ingá" investiram com suas proas contra os cascos mais frágeis dos navios rebeldes.

O "Jaguaribe" foi o primeiro a ser atingido e afundou rapidamente nas águas barrentas do Amazonas. Em seguida, foi a vez do "Andirá", que, após ser severamente danificado, também naufragou. O combate resultou na morte de aproximadamente 60 pessoas, entre combatentes de ambos os lados e civis a bordo das embarcações rebeldes.

O Legado da Batalha

A vitória das forças legalistas na Batalha Naval de Itacoatiara foi um golpe decisivo para o movimento rebelde na Amazônia. O afundamento de sua flotilha improvisada impediu o avanço sobre Manaus e efetivamente encerrou a participação da região na Revolução Constitucionalista de 1932.

Hoje, um monumento em Itacoatiara relembra o confronto, um testemunho silencioso do dia em que o maior rio do mundo se tornou um campo de batalha e a cidade se viu no centro de um dos momentos mais turbulentos da história do Brasil.


FONTE: Dias Recurvos e Revolução de 1932
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